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Penso, logo duvido.

Uma Análise Social a Partir do Cabelo – Ester Aguiar de Sousa

Ester Aguiar de Sousa

Mila na Flip.

“O teu cabelo não nega, mulata, porque és mulata na cor”.

(Irmãos Valença ou Lamartine Babo)[1]

Mas, se o cabelo é, apenas, um conjunto de pelos que cresce no coro cabeludo, que, além de modelar o rosto e proteger a cabeça das irradiações solares e da abrasão mecânica, que poder ele teria de afirmar alguma coisa sobre o sujeito, no qual ele cresce?

Por definição, de acordo com as características de seus fios, o cabelo pode ser adjetivado como liso, crespo ou ondulado; pode assumir várias cores e tonalidades. Mas, daí, como ele pode ser adjetivado a partir de valores positivos ou negativos? Como pode alguns cabelos serem “bons” e outros cabelos serem “ruins”? Como ele se desloca para além da cabeça, tomando o corpo inteiro, se tornando a pessoa? Para Djaimília Pereira de Almeida, escritora angolana que cresceu nos arredores de Lisboa, e que esteve recentemente no Brasil participando da FLIP, “O cabelo é a pessoa”!

É essa a viagem para a qual ela desafia os seus leitores, no seu primeiro livro publicado, e que vem despertando a atenção de quem gosta de uma boa leitura: o livro “ESSE CABELO – a tragicomédia de um cabelo crespo que cruza fronteiras” é um convite para a análise social sobre o preconceito racial e sobre a identidade feminina. Para a autora, “O cabelo e escrever precisariam de vir um dia a aliar-se como um par num reencontro”.

Para além do cabelo, a história narrada por Mila, personagem central do livro, se confunde, em grande parte, com a história da escritora e de tantas pessoas mais que passam a se identificar e a serem identificadas por características de ordem natural, o cabelo, a cor da pele, o sexo; e por características atribuídas, como a de colonizado, suburbano …

Quem é Mila? “Eu mesma”, responde a personagem. “Não comecei bem comigo. O cabelo corta-se e renova-se prolongando a sucessão dos ciclos, mas tal não é senão uma vida de extinção”.

A mulata Mila busca, inicialmente, identificar na sua origem as marcas estruturais deixadas pelos seus ancestrais, bisavós, avós, pais, eles já partícipes de misturas étnicas e raciais, tanto de brancos portugueses, como de negros africanos, de Angola e Moçambique, relacionamentos típicos resultantes da história da colonização portuguesa na África. Ainda menina, com três anos de idade, Mila foi trazida para Lisboa, onde passou a ter seus passos demarcados pelos novos relacionamentos, que a colocam numa situação de “diferente” da maioria dos habitantes locais. Nessa busca, ela conclui que “a origem não quer saber o que origina, não sabe que é origem. A partir desse ponto abstrato, o meu cabelo é apenas um movimento, um sinal de vida que não se distingue dos outros corpos sobre os quais a chuva cai…”.

De cabelo em cabelo, de cabelereiro em cabelereiro, dos piores aos melhores salões, das perucas e cabeças raspadas, dos cremes alisantes e das pastas ardentes, dos desfrisantes Soft & Free ou Dark & Lovely, capazes de transformar o medo em sorriso de crianças negras de cabelos lisos, até que a umidade quebre esse encanto, o cabelo de Mila toma a forma e o destino da construção da sua identidade. “Acordo desde sempre com uma juba revolta… dizer que acordo de juba por desmantelo é já dizer que acordo todos os dias com um mínimo de vergonha ou um motivo para me rir de mim mesma ao espelho: um motivo vivido com impaciência e às vezes com raiva”. E assim a personagem vai vivenciando as várias etapas de sua existência real e fictícia, das fantasias e do bullying, da desobediência e da necessidade de afirmação.

Numa de suas tantas experiências de resignação e de revolta, num misto de admiração, de medo e dúvida, Mila se inspira numa fotografia antiga, encontrada entre os seus pertences numa gaveta do seu quarto, que retrata Elizabeth Eckford, a primeira mulher negra a desafiar o racismo praticado pelas escolas, nos Estados Unidos, em 1957, quando entrou na Little Rock Central High School, escola reservada para alunos brancos, desafiando uma multidão que se postou em seu caminho. A garota vê na desobediência o passo dado para um outro olhar para dentro de si, tomando um caminho para o autoconhecimento e para a descoberta das diferenças e das desigualdades que se geram a partir daí. “Se a injustiça é o resultado da falta de sentido do que acontece, e com a qual nos conformamos com dificuldade, é também a possibilidade de reclamar um certo quinhão de graça nas nossas vidas”.

Sinceramente, “Esse Cabelo” me conquistou a cabeça e o coração. Leiam!

 

[1] Existe ainda uma disputa sobre a autoria da letra da famosa música.

3 Comentários

  1. Prezada Ester,

    Muita boa sua reflexão com base nos escritos de Mila. A lê-la me ocorreu a obsessão de minha mãe com os cabelos. Já a vi dizer, a exemplo da escritora, que “cabelo é tudo”, além da surrada fórmula que reza que “o cabelo é a moldura do rosto”. Como boa nordestina, mamãe sempre consagrou essa fórmula que divide os cabelos entre bons e ruins.

    O dela, ironicamente, por ser demasiado ´bom` (logo liso), ela considera ´ruim` porque dificulta um penteado elegante. Daí ela devotar todo santo dia um par de horas para que o cabelo tome a forma que lhe agrada, à custa de tanto laquê que já deve ter causado um rombo no ozônio dos céus do Recife. Nessa toada, la ainda hoje pranteia a morte de Marcos Freire: “O cabelo dele era tão lindo”.

    Nós, filhos e primos, também éramos regularmente submetidos a um enquadramento estético adequado na adolescência. Certa feita ela me forçou a ir a seu cabeleireiro para alisar meu cabelo. Segundo ela, ele era muito rebelde, cheio de ondulações. Lembro que aplicaram uma fórmula tão demoníaca que tive queimadura de segundo grau no couro cabeludo. Assumir cabelos encaracolados era flertar com uma espécie de marginalização.

    Enfim, ótimo e original seu texto. É nessas pequenas coisas que se escreve o melhor da sociologia e da antropologia cultural. Todo o resto decorre daí. Qualquer hora dessas me animo a falar sobre a febre das mulheres chinesas em ter olhos amendoados, como as ocidentais.

    Fernando

  2. Querida Ester,
    Antes de tudo, congratulo-me pelo seu retorno à revista. Há tempos andava sumida. Comentário bom o seu. Desses que nos levam a querer ler o livro. Vou procurar.

  3. Amiga Ester,

    Com certeza é uma leitura que deveremos fazer, pois só em vc recomendar e estimular a gente a voltar o olhar para conceitos e pré..conceitos em nossa sociedade torna-se de grande valor. E, este comentário vindo de uma grande apreciadora e devoradora de leituras diversas como vc o que dizer então, ao não ser ler e tirar nossas conclusões. Agradecemos sua recomendação! Abraço.

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