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Penso, logo duvido.

Vida e morte em Varanasi – Fernando Dourado

Fernando Dourado

Cerimônia em Varanasi.

I

O ano se encaminhava para o fim e eles saíram de Nova Déli logo cedo, por volta das sete horas. Segundo o concierge do hotel, antes deste horário a neblina não os deixaria progredir e o trajeto seria temerário. Já se viajassem apenas um pouco mais tarde, os engarrafamentos os impediriam de avançar a boa velocidade, o que ali podia significar, se muito, setenta quilômetros por hora. Ao cabo de uns dias na capital, era hora de percorrer outras paisagens. De preferência, aquelas que pudessem ser cobertas de carro ou de trem. Mais adiante, tomariam o avião para ir a Mumbai, a última grande cidade do périplo. Mas para isso ainda percorreriam muitas centenas de quilômetros.

O automóvel era confortável e Herval se instalou ao lado do motorista, uma figurinha minúscula e aparentemente segura do que estava fazendo, tanto quanto permitiam as estradas caóticas. Clara Moser acomodou-se no banco traseiro ao lado da cesta de mantimentos que trouxera do hotel. Ainda na véspera, jantando no esplêndido restaurante Boukhara, Herval lhe perguntara o que estava achando de tudo: “É um pouco como eu pensava. Só não imaginava que a pobreza fosse tão gritante. O mais incrível é que eles sorriem com tanta facilidade. O passeio entre os fardos de pimenta me curou de vez da sinusite. Numa terra poluída como esta, nunca pensei que respiraria tão bem. Já achei meu descongestionante favorito”.

II

Não tinham sequer percorrido trinta quilômetros quando a neblina voltou a se adensar. O motorista só podia contar com a faixa desbotada do meio da pista para se orientar. Herval sugeriu que parassem no acostamento. “Nunca, senhor, seríamos alvo fácil de colisão”. Foi só ele dizer isso para que ouvissem o estalido inconfundível do atrito de latarias, seguido de um estouro de vidros quebrados que vinha da esquerda. Inalterado, Lakshmi seguiu caminho como se nada tivesse sucedido. “Isso acontece todo dia. É parte do risco de nossa profissão”, comentou com uma ponta de orgulho. A pequena delegação obedecia a silêncio máximo e continha a respiração. Nessas horas, Herval se culpava por rebocar Clara para aventuras.

Da parte dela, contudo, a sensação era bem outra. Na verdade, ficava grata por ter um namorado dado ao inusitado. “Você já viu que Lakshmi está mascando paam? Só não sei onde ele vai cuspir a borra”. De fato, o motorista tinha os dentes vermelhos daquela espécie de tabaco a que eles atribuem propriedades digestivas. As ruas centrais de Déli eram pontuadas de manchas vermelhas nas calçadas, produto das ruidosas escarradas do bagaço. Clara tinha lido a respeito no livro “O tigre branco”, de Aravind Adiga, que devorara quando os planos da viagem ainda estavam no ar. Ao apontar as manchas de paam nos paralelepípedos, Herval sentiu uma ponta de emoção. Estavam na Índia. Ele sabia que atendera a uma velha aspiração dela.

III

Quando entraram em Himachal Pradesh, tudo melhorou. Depois de alguns dias nos becos da Déli antiga, tinham agora direito a ar puro e às cores vivas dos saris que ornavam a paisagem campestre. No meio da tarde, chegaram ao sopé da cordilheira Himalaia. Na beira da estrada, macacos se aqueciam ao sol, como se reverenciando os caminhões multicoloridos cujo trajeto acompanhavam com olhar atento. Nos pára-choques, o aviso “buzine forte” chamou a atenção de Herval que quis apontá-lo para Clara, mas então viu que ela cochilava. Quando escureceu, pararam num hotel ordinário, que Lakshmi disse ser o único em léguas. “A very exclusive place, Sir. Believe me”. De tão especial, o porteiro se recusou a dar um quarto ao motorista.

Herval argumentou que ou bem conseguiam alojar dignamente Lakshmi ou eles seguiriam viagem. Relutante, o recepcionista argumentou: “Dê a ele metade do valor da diária e ele dormirá no carro, ao lado do viveiro de emas. Está acostumado a isso. Hotéis como o nosso não são para todo mundo”. Clara interferiu e, pragmática, disse que queria o motorista descansado no dia seguinte. Não o deixaria dormir ao relento a temperatura negativa. Lakshmi estava nitidamente constrangido e, pelo que diziam as aparências, mais interessado no dinheiro do que no conforto. No elevador, Clara ainda argumentava: “Não dizem que o sistema de casas foi abolido? Eis uma prova de que não”. No final, tudo deu certo e Lakhshmi dormiu como um marajá.

IV

As paisagens afinal ficaram belas e as ravinas ao lado, de tão íngremes, davam vertigem só de olhar. À tarde, Lakshmi cometeu um erro que quase lhes custou a vida. Isso porque tentou ultrapassar um caminhão na subida, a poucos metros de uma curva de traçado cego. Resulta que vinha outro caminhão em sentido contrário. No lugar onde deveria haver um acostamento, só um imenso paredão de calcário. Deu-se o milagre: o caminhoneiro ao lado pisou no freio e aquele com que colidiriam fez o mesmo. Buzinas navais ecoaram no desfiladeiro. O cheiro de queimado impregnou o ar; quilos de cascalho se descolaram da pista castigada, e Lakshmi se esgueirou na única brecha possível. Foi questão de dois segundos. Um, dois e pronto.

No anoitecer do último dia do ano, chegaram a Dharamsala. O réveillon se resumiu a um passeio pelas ruelas estreitas de Mcleodgranj, que levam à casa do Dalai-Lama. Sem ressaca nem alvoroço, foram ao templo budista e à residência do líder espiritual dos tibetanos. Clara atraiu a atenção dos visitantes pelo sorriso encantador e logo estava cercada de crianças. Será que a filha um dia lhe daria netos? Todas queriam uma foto e alguém chamou-a de Julia Roberts. Isso talvez explicasse tanto carisma junto à moçada. Em Dharamkot, Lakshmi comprou pão para os macacos. Parece que recobrara a cor azeviche depois do susto da quase colisão e por certo que estava ressentido com o mutismo de Herval, que mal lhe dirigira a palavra desde então.

V

No dia seguinte, despertaram em ótimos espíritos. Percorreram uma centena de quilômetros a salvo da neblina e das colisões e chegaram ao Punjab. Uma gente amalucada tentava interceptar o carro nas cidadezinhas. Lakshmi disse que eram aldeões bêbados de saída dos casamentos da época. “Muitos se jogam diante dos carros em movimento, senhor. É que não têm o hábito de beber e querem imitar os ocidentais”. Fazia sentido. Chegaram tarde a Amritsar, na fronteira com o Paquistão, e lhes tocou visitar sem pressa o Templo Dourado. Munidos de uma garrafa de álcool em gel, deixaram os sapatos com os guardadores e Clara Moser encobriu os cabelos com um chale de pashmina para ter acesso ao pátio.

Apesar do frio e do chão úmido lavado diariamente com leite, ficaram lá até tarde da noite. O templo fica no meio de um imenso lago artificial onde os sikhs se banham com a mesma devoção com que os hindus entram no Ganges. Profanar esse templo manu militari custara a vida a Indira Gandi.  Para que lugar melhor para experimentar o despojamento? Herval e Clara tiraram os sapatos, levantaram a barra das calças e ficaram uma hora sentados na borda, sem trocar palavra. Televisões espalhadas por todo o recinto transmitiam a repetição de mantras numa voz estridente, porém ritmada. Eis um momento que ficaria eternizado na mente de ambos, acontecesse o que acontecesse mais adiante.

VI

Voltaram à capital e seguiram direto para a estação ferroviária. Lakshmi estava feliz e assobiou o tempo todo. Disse que estava saudoso dos filhos. Clara pediu para ver as fotos dos pequenos e perguntou seus nomes. Herval preparou uma gorjeta de 3000 rupias, mas ela achou pouco. “É pouco no Brasil, mas não estamos aqui para mudar a Índia nem subverter a ordem. Veja, essa gorjeta é o triplo do que recomenda a praxe”. Como Herval previra, Lakshmi ficou agradecido e pediu para que pousassem juntos para fotos. “Cuidado com as estradas. Seus filhos precisam de você”. Clara desistiu de pedir uma explicação ao motorista sobre seu nome. Se Lakshmi é o nome de uma Deusa, como explicar que se aplicasse a um homem? Mistérios da Índia.

VII

Clara quase desmaiou quando viu a plataforma coalhada de passageiros para a longa viagem de dezoito horas de trem até Varanasi. O mesmo aconteceu com Herval. Mas, por dever de ofício, ele conseguiu dissimular a perplexidade. Dois carregadores se encarregavam da bagagem. Certo é que o desassossego não durou muito. Se mais de três mil pessoas se espremiam ali, o fato é que logo afloraram três mil sorrisos de acolhida. Todos tinham um gesto espontâneo e se empenhavam em dar orientações sobre a numeração dos vagões, mesmo erradas. Ao entrar na cabine, empoleiraram-se nos beliches – a Clara coube o superior – e aceitaram de bom grado o chá, regalia suprema da primeira classe mais bizarra que já tinham conhecido.

Os solavancos da locomotiva e as paradas imprevistas foram o de menos para o casal. Fascinante foi saber que atravessavam o coração da Índia em Uttar Pradesh. Naquele instante, eram apenas uma discrepância estatística em meio aos milhares de indianos que lotavam todas as composições do trem imenso. O amor tem a faculdade de soldar as pessoas diante da adversidade do ambiente externo. Se este nada tinha de hostil, a precariedade se fazia presente na calefação – ora escaldante, ora inexistente -, nos banheiros imundos que davam sobre as dormentes dos trilhos e na quentinha resfriada que trazia um pedaço de frango besuntado com pasta de curry apimentada com arroz morno. Mas tudo isso era de somenos.

VIII

Por muitos e muitos anos, bem depois da separação, Clara haveria de recordar o quanto fora divertida a chegada à cidade sagrada de Varanasi. Mal desceram do trem, foram escoltados por uma dúzia de indianos que ofereciam aos brados seus serviços. Cada um representava um elo de uma cadeia lógica para os locais embora pouco aparente para os menos iniciados. Um carregava as malas por 20 rupias; outro disponibilizava o táxi por 50, não importando o destino. Um terceiro o dirigia por mais 200 e um quarto recomendava um hotel com vista para o Ganges por 1000. Herval sentiu chegado o momento de dar um freio de arrumação, até mesmo para evitar que eles brigassem entre si.

Clara se divertiu com a cena de enquadramento teatral em que Herval pontificou como um xerife numa rinha descontrolada. O que é certo, porém, é que alojaram-se no Clarks e saíram na sequência para ver a queima de incenso à beira do Ganges. Na escadaria do ghat, meninas insistentes vendiam pequenas coroas de flores com velinhas no centro do arranjo para ser lançadas na correnteza. A ambos, a puja de Varanasi pareceu demasiado coreografada, como se estivesse embalada para a apreciação dos turistas. Voltaram para o hotel de tuc-tuc. Na algaravia de sons, Clara emudecia embora os olhos não descansassem. O motoqueiro insistia para que fossem ver lenços de seda. “Vamos para o hotel”, disse Herval.

IX

Nos dias que se seguiram, o casal elegeu o simpático Anil como o assessor de logística, por assim dizer. A bordo de um lindo Ambassador de cor gelo, que passava o dia a polir, o motorista trajava-se com elegância, o que contrastava com os dentes  vermelhos de paam. Era tão viciado em mascá-lo que os cantos da boca espumavam de saliva rubra. Um desavisado pensaria tratar-se de sangue. No entardecer do dia seguinte, voltaram ao Ganges para ver os ghats e o barqueiro remou até as estações de cremação de corpos. Nessa hora, Clara deu uma trégua nas fotografias. Onde a água chapinhava, cadáveres jaziam em macas de bambu, cobertos por flores alaranjadas e um pano açafrão.

Aproximaram-se o que puderam da margem, onde os familiares se despediam dos despojos dos mortos. Depois de cremados na madeira – os mais abonados podiam optar pelo sândalo –, os corpos ficavam reduzidos a uma peça carbonizada que, como viram, foi arremessada nas águas, a metros de onde estavam, uma cena de impacto desagradável. À noite, pela primeira vez, Clara não passou bem. Avessos a detalhar planos, confabularam sobre a próxima escala. Depois de quinze dias nos confins do norte, era hora de respirar ares mais mundanos, talvez à beira do Mar da Arábia, em meio aos fetiches de Bollywood. Mumbai é o grande centro da Índia, mas até por isso parece oferecer uma versão abrandada das mazelas nacionais.

Ao apagar das luzes, Anil convenceu-os a ir a um templo jainista, um programa dispensável. Mas foi lá perto que visitaram uma bem sortida loja de tapetes. Apaixonaram-se por um de padrões geométricos, mas não queriam carregá-lo de país afora. Herval derrubou o preço em 30% com meia-hora de discussão e Clara sorriu com os estratagemas de negociador do namorado. No final, ele sacou duas cédulas de U$100 e deu-as ao vendedor como gesto de boa-vontade. “Só honro o saldo no aeroporto de Nova Déli, junto a um emissário seu que levará até lá o tapete”. Uma semana mais tarde, lá estava o rapaz com um pacote enorme. Então mostrou pela brecha do papel de embrulho grosso, a rubrica que Herval rabiscara no verso da peça original.

X

No aeroporto, Anil se emocionou e chorou. O avião da Air India decolou de Varanasi com quatro horas de atraso. Mas para quem gosta de ler, a vida pode ser simples. Enquanto Cara Moser terminava “Equador”, Herval se deliciava com “The Beautiful and the Damned: Life in the New India”, de Siddharta Deb. Ali o autor esboçava o perfil de emergentes: desde um empresário vaidoso que enriqueceu com a massificação do ensino superior de quarta categoria até a saga de jovens belas que, chegadas do interior, eram alçadas a atendentes de grandes hotéis. Foi então que souberam que havia overbooking. Quando solicitado a que esperassem o próximo voo, Herval armou um escarcéu tão veemente, e tão convincente, que resolveram optar por outra vítima.

O primeiro domingo em Mumbai amanheceu belo e sem neblina. Atravessaram de carro a ponte estaiada e percorreram a Marine Drive para respirar o ar do mar. Chegaram ao Portão da Índia que regurgitava de visitantes endomingados. Durante o copioso brunch do hotel Taj Mahal, Herval fez um longo relato sobre as mortes que tinham ocorrido ali, no rescaldo de um ataque de um grupo de terroristas paquistaneses, em 2008. O que não impediu-os de apreciar o bufê de iguarias que rescendia a tudo que levou os portugueses a dar muitas voltas ao mundo: cominho, curry, cravo e pimentas as mais aromáticas. Disse Clara: “É um país tão exuberante. Mas vou custar a esquecer os cadáveres sendo carregados em plena feira de Varanasi, não nego”.

Vendo o sol descer atrás do horizonte, sentiram saudades antecipadas da Índia – um país onde tudo começa com um Não e pode acabar com um sorriso.

4 Comments

  1. Fernando é mestre em tecer uma trama que nos faz querer ler a próxima linha! Os caminhos do texto se bifurcam em descrições vívidas como em um filme encoberto em filtro dourado!
    Sentiria a mesma sensação de Clara ao lembrar do crematório a céu aberto! As culturas nos recebem e nos repelem em eternos sentimentos!
    Mais um roteiro a ser guardado com carinho!

  2. Obrigado, Maria Teresa, fico feliz que alguém de sua sensibilidade tenha mergulhado fundo nesta leitura. Apareça mais vezes.

    Bj,

    FD

  3. Você já pensou em escrever roteiro de filme? Esse aí poderia ser um. Não tem Passagem para Índia? Você aproveitaria o seu título que também é muito bom. Parabéns, abraços.

    • Já fiz um roteiro que foi bater nas mãos de Hector Babenco. Duas semanas depois ele morreu. Não acho que algum diretor vá querer receber um próximo doravante. Mas obrigado por ter lido e, pelo jeito, gostado.

      Abraço,

      FD

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