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Penso, logo duvido.

Viva o galanteio! – Editorial

Editorial

Eugen de Blaas The Flirtation.

Sem radicalismo. Todo abuso é condenável. Todo gesto ou palavra que excede ou viola os padrões de civilidade é inaceitável. O assédio sexual é uma forma de abuso, quando se trata de uma abordagem persistente e incômoda para a conquista de um parceiro, sendo desagradável e impertinente quando ignora a recusa do outro. Mas não é crime, exceto quando for utilizada posição de poder ou hierarquia para forçar uma relação, independente do sexo de quem o pratique. E o jogo da sedução? O galanteio ou a paquera? Onde estão os limites? Alguns discursos raivosos parecem confundir tudo, reduzindo toda forma de galanteio a violência e desrespeito. Sem radicalismo, é necessário distinguir as nuances de um movimento de sedução, que envolve duas pessoas, que podem ou não convergir nos sentimentos e interesses. O limite da tolerância é a grosseria, inaceitável ofensa ou desrespeito. Mas, mesmo a grosseria depende da interpretação dos envolvidos, e de aspectos culturais, sendo muito diferente em países com maior ou menor formalismo nas relações humanas. Em algumas culturas, um simples abraço ou beijo na face pode ser considerado um atentado ao pudor e um abuso sexual. O inaceitável é qualquer forma de abuso ou violência. O galanteio ou paquera, com gestos e sinais sutis que podem evoluir, dependendo da reciprocidade e aceitação do outro, é parte indispensável do processo de sedução. Sem este jogo de aproximação e sedução, não existiria o encontro amoroso e sexual entre duas pessoas.  O galanteio não pode ser considerado agressão ou violência, como um esfregado num ônibus apertado, um alisado nas partes íntimas sem conivência e autorização, ou mesmo uma proposta indecorosa. A sutileza e a elegância fazem a diferença, mas a interpretação dos sinais nem sempre é precisa e rigorosa, o que pode gerar insistência indevida e ousadia impertinente. Neste caso, bastaria o desprezo, ou mesmo uma elegante e humilhante ironia.

6 Comments

  1. Da mesma forma que passou a vida veiculando “merchandising” de placebos em seus programas (o que já levou gente à morte), a esperta Oprah presidiu um ritual lúgubre e jogou pó nos olhos de gente até muito centrada (como Meryl Streep)com suas carradas de “virtue signalling”. Basta ver o que aconteceu nas redes sociais. Todo mundo quis pegar uma carona e agregar valor à imagem, alinhando-se àquelas patranhas muito bem ensaiadas. Começando a fala com uma unanimidade – Sidney Poitier -, não tardou a desfiar o rosário de pieguices, com o doente do Weinstein como pano de fundo.

    Pois bem, a América já pode ter salvado o mundo livre pelo menos duas vezes e lhe seremos eternamente gratos por isso. Mas dessa vez, veio da França o contraponto às diatribes mal calibradas da calejada Oprah. Foi ninguém menos que a “Belle de jour”, La Deneuve, quem, ainda que com palavras não tão bem escolhidas, lembrou ao mundo o que dizia o velho seresteiro Nélson Gonçalves: enquanto houver homem e mulher nesse mundo, haverá lugar para a sedução, o galanteio, a fossa, a dor de cotovelo e uma dose de rum( essa foi por minha conta). Só um mau caráter faz confusão entre o que é flerte e assédio.

    Abraço,

    Fernando

  2. Muito bom que o artigo tenha começado com o “todo abuso é condenável”, e aproveito para comentar esse assunto polêmico. Entendi que os comentários de Oprah e o manifesto de La Deneuve são partes da mesma verdade. Apenas foram dirigidos a segmentos diferentes da sociedade. Um segmento machista, desrespeitoso, agressivo e invasivo, que se manifesta todos os dias oprimindo as mulheres, merece o puxão de orelha de Oprah. Outro segmento, formado por gente civilizada, que exercita o respeito em todas as relações e não somente nos galanteios, gostou de ouvir o que disseram as francesas do alto da sua civilização e charme inigualáveis. Que ambos sejam ouvidos por quem merece e precisa.

  3. O artigo está muito bem posto. Confundir sedução com assédio violento é retirar o romantismo das relações humanas e condenar homens e mulheres a assumirem comportamentos hipócritas, negando o drive da sexualidade alimentada por poderosos hormônios e sentimentos. Daqui a pouco a turma vai propor que é melhor homem com homem e mulher com mulher, como se isso evitasse também comportamentos, para o bem ou para o mal, semelhantes ao que ocorrem nas relações heterossexuais.

  4. A mídia e as assim chamadas redes sociais estão cheias desse debate, em parte porque é fácil opinar, não exige muita pesquisa ou análise. É velha a rivalidade entre o cinema francês e sua Noite de Césares e o espetáculo em Hollywood , e as mulheres de Hollywood estavam ficando tão hiperbólicas, espetacularizando de tal modo sua condição de vítimas (ainda que algumas tivessem aproveitado bem seu “sugar daddy”), que Catherine Deneuve e as 99 fizeram bem em seu chamado à realidade. Aqui quem melhor escreveu sobre o tema foi um velhinho francês, Gilles Lapouge, sempre sensato, e que normalmente trata de temas mais relevantes no Estadão. Ao menos lembrou que há vários “feminismos”, nem tudo é “neofeminismo de vitimização”.
    http://cultura.estadao.com.br/noticias/cinema,analise-as-mulheres-que-nao-querem-a-condenacao-de-todo-o-jogo-do-amor,70002146290

  5. Concordo plenamente com o artigo.
    Prevalecesse tempos atrás – não precisa ir muito longe, digamos 20 anos – os conceitos e xenofobia de hoje, eu e muitos dos que tem minha idade, seríamos, com certeza, vítimas de acusação de assédio e imoralidade, por atos e gestos que fazem parte de uma elegante, educada e sadia abordagem.
    Do jeito que as coisas andam, se um dia surgirem novas “aproximações” – hoje estou bem casado! – só com o prévio aval do meu advogado…

  6. Os discursos inflamados dos americanos são importantes, mas beiram o moralismo evangélico ao colocar no mesmo nível sedução e estupro.
    Concordo com tudo!

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